A dinâmica da conta corrente e os equilíbrios domésticos


Lições para Economias Africanas: A exaustão das Reservas Internacionais, o agravamento do Endividamento, a ausente produção abundante de alimentos e as implicações da fome. 

 

Nos anos de 1958 e 1961 a China viveu uma forte crise de fome, fruto de desastres naturais e erros de planeamento na gestão pública. Naquela altura, nem mesmo o apoio diplomático da Russia facilitu a China. Sabe-se que na tentativa de obter emprestimos externos, o líder Mao Tse-Tung não foi amigavelmente acolhido pelo seu homólogo russo.

“Um povo jamais se pode considerar soberano e livre quando não for capaz de garantir a produção de 2/3 dos alimentos necessários para a sua dieta básica”

A crise da fome na China, tinha dado lugar ao chamado programa “O Grande Salto Adiante” voltado na perspectiva da melhoria das técnicas de produção agricola visando elevar a producão massiva de alimentos.

Nos gráficos abaixo procuro fazer leituras do comportamento de duas economias pujantes da Africa ao Sul do Sahara: Nigeria e Angola, países cujo efeito da crise das commmodities afectou o saldo da conta corrente, corroendo reservas internacionais, retraindo o PIB e agravando o nível de endividamento.

Depreende-se que o impacto da crise terá afectado a conta corrente da economia nigeriana registando um saldo negativo em apenas um ano. A este facto, está associada a capacidade de resiliencia da economia nigeriana, os esforços por ela conduzidos sobretudo na produção de alimentos,  contrariamente ao cenário de elevada dependência de importações. Adicionam-se ainda outros factores como os indices crescentes de  mão-de-obra qualificada e a garantia de matéria prima básica para alguma industria transformadora.

No gráfico abaixo, depreende-se que o choque para a economia angolana tenha sido mais severo, contraiamente a Nigeria, o saldo da conta corrente permaneceu negativo, em parte fruto da fraca capacidade de substituição de produtos importados por produtos da produção nacional, sobretudo, produtos alimentares.

O saldo da conta corrente não é afectado apenas pelo choque de oferta nas exportações mas também pela ausência de ajustamento propocional nas importações; ou redução destas substituindo-as por produtos de produção local.

Associado ao comportamento da deterioração da conta corrente, traz-se ainda a noção dos riscos causados pelo endividamento público e privado, que por sua vez, absorvem o saldo da conta corrente por via dos pagamentos do reembolso da dívida chegando a corroer as reservas internacionais quando a conta corrente não satisfaz as necesssidades de importações e pagamento da dívida. Nestas circunstâncias as crises agravam-se, podendo sair de meras crises cambiais, crises da dívida pública externa, ou de  crises económicas para crieses de paralização súbita associadas com tumultos sociais causados por conta da fome.

Nesta apreciação rápida não trazemos grandes estatísticas da produção alimentar, todavia procuramos elevar o despertamento para a necessidade de economias em situações similares ao ao quadroa aqui apresentado, preocuparem-se mais na produção de alimentos em massa, permitindo que as cambiais sejam libertas para aquisição de outros bens estratégicos e preferencialmente bens de investimento e não de consumo.

Nestas circunstancias, a inação representa um custo pernicioso, podendo lavar a economia para o precipicio súbito e inesperado!

“Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor benção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progressos. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem ficar “superado”. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais aos problemas do que às soluções.

A verdadeira crise, é a crise da incompetência. O inconveniente das pessoas e dos países é a esperança de encontrar as saídas e soluções fáceis. Sem crise não há desafios, sem desafios, a vida é uma rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um. Falar de crise é promove-la, e calar-se sobre ela é exaltar o conformismo. Em vez disso, trabalhemos duro. Acabemos de uma vez com a única crise ameaçadora, que é a tragédia de não querer lutar para supera-la.”

Albert Einstein

  1. #1 by Paulo Ringote on Outubro 13, 2017 - 10:31 pm

    A vulnerabilidade das economias acima identificadas, não pode ser apreciada apenas com a evolução do sector real. O sector real sempre será a base. Todavia existem desequilíbrios, dentre as quais destaco as vulnerabilidades financeiras, que devem ser levadas em conta. O pano de fundo destas vulnerabilidades financeiras está associado ao regime cambial, sobretudo quando os países adoptam o regiam de taxa de cambio fixa, ou mesmo de flutuação administrada. Este fenómeno é bem visível no caso da economia angolana.

  2. #2 by armanuel on Outubro 18, 2017 - 10:50 pm

    Com certeza caro Paulo, as vulnerabilidades extendem-se para outras áreas como a financeira. Aqui a análise que se desperta é básica, a de que o país precisa acelerar a taxa de produção de alimentos ante ao risco de quebra contínua das reservas internacionais liquidas. Quando um país vive da importação de alimentos e algures do tempo não dispoe de recursos suficientes para os importar, despolecta uma crise sem precedentes, as crises da fome são perigosas. O sábio é não deixar que este momento apareça.
    Repare como a reanimação do crescimento económico dos dois gigantes (Nigeria e África do Sul) para o período de 2017 e 2018, advem de uma notavel contribuição da Agricultura. Ora esta análise vai na perspectiva de desperar a necessidade do terceiro gigante da Africa ao Sul do Sahara (Angola) focalizar-se mais nas políticas tendentes a estimular a produção de alimentos e não esperar te-los de saldo magros da balança das tansações correntes, exaurindo reservas.

  3. #3 by Noemia Ludmila on Maio 3, 2018 - 10:19 am

    O gráfico referente a Angola, reflecte de uma maneira muito evidente as consequências devastadoras da Dutch Disease, com a queda dos preços internacionais do petróleo a partir de meados de 2014, diminuíram também as receitas do país o que foi suficiente para gerar uma instabilidade económica que se estende até a presente data.
    Angola precisa resolver o problema da insuficiência na produção de alimentos, pois isso sim, poderia ajudar a reduzir o défice da balança corrente.

  4. #4 by MARTINS AFONSO on Dezembro 18, 2018 - 5:55 pm

    Os resultados das figuras apresentadas indicam o quanto Angola continua cego das reais situações das constantes crises. É notório que as previsões apresentadas aparentam um aumento do stock da dívida para os dois países (com maior destaque Angola).
    A forte dependência do sector de enclave e a constante perturbação da variável preço no mercado mundial, tem trazido febres não animadoras para os desígnios orçamentais e para os grandes objectivos macroeconómicos da nossa economia.
    Para além das questões levantadas pelos distintos (desde a fome, os regimes cambiais e as crises financeiras); a variável educação patriótismo, política e corrupção têm afectado significativamente a formulação dos modelos económicos no país.
    Outro sim meus caros compatriotas, o modelo económico adoptado pós-guerra civil (particularmente nos anos de 2007, 2008 até 2012) não estava virado (apesar dos problemas das minas nos campos) na cadeia produtiva se não mesmo no betão e de forma concentrada na capital do país (o que não resolve até agora os problemas da economia, muito pelo contrário). Como consequência desta cega medida, foi o despovoamento da mão-de-obra agrícola do campo para a cidade, vertiginoso aumento do desemprego, crescente aumento da demanda agregada dos produtos da dieta alimentar, e, concomitantemente, levou a economia para o mercantilismo (caminho mais fácil, importação), o povo se foi tornando cada vez mais improdutivo e as reservas advindas das receitas petrolíferas foram caindo cada vez mais.
    Aqui ficam os questionamentos:
    1. Como poderíamos verificar uma conta corrente equilibrada e robusta Mestre?
    2. Como se poderia resolver o caso da fome se não mesmo sacrificar a conta corrente e aumentar o stock da dívida, uma vez se ter adoptado modelos não confortáveis para o país e a vulnerabilidade do sector de enclave?
    4. A linearidade das políticas económicas traçadas em Angola no período em análise acompanharam mesmo as boas práticas governamentais?
    5. Que política cambial séria poderia ser adoptada e com efeitos notórios se a economia estava altamente dolarizada até 2014 e as divisas não eram destinadas para bens de capital se não mesmo, para bens de serviços externos?
    6. De que forma teríamos um mercado financeiro robusto, quando se toma emprestado e não se devolve?
    Dentre estes questionamentos e outros, são apenas para juntos reflectirmos que a educação, o patriotismo, a determinação no saber fazer, e no geral, o comportamento dos agentes económicos para o progresso sustentável, ditam o bom funcionamento de qualquer política.

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